Entrevista do site whohub.com à Dra. Virgínia Helena

Qual é sua especialidade em saúde? Em que consiste seu trabalho?
Sou fisioterapeuta especialista em reabilitação cardíaca e prescrição de exercícios para grupos especiais. Meu trabalho consiste em reabilitar os pacientes cardiopatas que estão na prevenção secundária da lesão, bem como os da prevenção primária, enquadrados nas fases 3 e 4 da reabilitação cardíaca, aptos para atividade física leve e moderada. Pelo fato da maioria dos cardiopatas terem outras patologias associadas, como diabetes, alto colesterol e obesidade, por exemplo, estes pacientes entram na categoria de “grupos especiais”, tendo a atividade física totalmente personalizada para cada caso.

Que classe de clientes você tem, por que eles vêm a você e o que pode oferecer-lhes?
A maioria dos pacientes que atendo buscam atividade física orientada. Eles sabem que precisam praticar exercícios por recomendação médica, mas não realizarão se não for uma atividade personalizada e orientada para o caso deles. Eles não querem ir à academia ou andar no parque. Querem um profissional ao seu lado durante todos os exercícios.

Qual é sua definição de saúde, e de uma vida saudável?
Sintonia entre corpo e mente. A atividade física acelera o metabolismo, trabalha o sistema circulatório e melhora a capacidade cardiovascular. Diminui os níveis de estresse e ansiedade, trabalhando o psicológico do paciente. Uma mente tranquila e um corpo saudável são sinônimos de qualidade de vida.

Regras básicas para quem aspire ser centenária.
Hábitos saudáveis. Isso não significa fazer dieta a vida toda ou deixar de sair à noite e sempre acordar cedo, mas sim haver equilíbrio nas atividades. Praticar atividade física, exercitar o cérebro com jogos mentais, não usar drogas e comer em horários regrados permitem que o organismo trabalhe de forma sincrônica e organizada, estabelecendo padrões de funcionamento dentro de uma faixa de normalidade para o indivíduo.

Felicidade e saúde, quanto têm em comum e quanto há de mito nessa relação?
Se felicidade é considerada um estado de espírito, acredito que a prática de atividade física proporcione isso. O exercício físico libera substâncias no organismo que nos dão a sensação de prazer e bem estar. A longo prazo, essa sensação é duradoura, e a atividade física passa a ser um hábito prazeroso. O organismo saudável mantém o sistema imunológico alto, e o riso de manifestação de doenças em geral é menor, fato.

Medicina convencional e medicinas alternativas, o que é real e o que é superstição?
Isso depende do conceito de convencional e do conceito de alternativo. Por exemplo, medicina oriental é considerado por muitos especialistas como medicina alternativa, mas na minha opinião, muitas vezes é o tratamento que de fato alivia os sintomas e regride as causas. Tenho como conceito que o “convencional” é de fato o conveniente para cada caso.

A mente pode provocar ou curar uma doença? Que evidências você conhece ao respeito?
Não há evidências científicas que comprovem isso, mas e neurofisiologia é clara em mostrar que o cérebro é quem manda. Talvez não tenhamos completo domínio sobre “curar” uma doença porque partes distintas do cérebro que precisariam estar conectadas não estão. Mas o sistema de ‘luta e fuga’ no cérebro é a evidência mais clara que temos ao nos fazer controlar diversos níveis de dor quando estamos em ambientes inapropriados ou em situações de perigo.
Mas pessoalmente, acredito que a concentração aprimora o controle mental.

Você recomenda vitaminas, complementos nutricionais? Você considera provado seu efeito benéfico?
A suplementação nutricional é mais do que estudada, e seus benefícios são inquestionáveis. Porém, existe uma prescrição para cada pessoa, de acordo com suas necessidades, e esse trabalho cabe exclusivamente ao nutricionista.

Cada dia nasce um novo produto para frear o envelhecimento. É consolo o que realmente compramos?
O processo de envelhecimento é natural. Faz parte da vida, do desenvolvimento, e não podemos fugir disso. Envelhecer com saúde é o que importa.

Obesidade, insônia, depressão, já são epidêmicos. O que isso diz sobre nosso sistema de vida? O que deve ser mudado em nível social?
Diz que nossos hábitos não estão saudáveis. E é difícil levar uma vida “regrada” com a rotina que nosso país tem. Trânsito, trabalho exaustivo, alimentação de má qualidade, por exemplo. Incorporar a atividade física e treino psicológico para diminuição da ansiedade são práticas que devem ser incluídas na rotina, e não como complemento.

Sua opinião sobre o uso da maconha como tratamento terapêutico para doenças terminais.
Infelizmente o Brasil é um país atrasado nessa questão. EUA, Israel e Holanda são exemplos de países que adotam o uso da maconha para fins terapêuticos. Eu tanto concordo com esse tipo de tratamento, como acredito que não deve ser aplicado apenas em pacientes em estado terminal, e sim, como tem sido utilizado na Califórina em pacientes com câncer, tendo eficácia comprovada da diminuição de dor e dos níveis de estresse nesses pacientes.
Uma coisa que precisa ficar esclarecida, é que o uso da maconha para fins terapêuticos não é na dosagem e na forma como é utilizada aqui no Brasil no formato “ilegal”. Ninguém toma 10 aspirinas de uma vez achando que vai melhorar mais rápido. Com a maconha é a mesma coisa. Há dosagens específicas, e muitas vezes em fórmulas manipuladas para cada tipo de tratamento.

A relação paciente/médico é parte do sucesso de um tratamento. Como deve ser?
Sem dúvida. Tanto o médico, como qualquer outro profissional da saúde deve estabelecer uma boa relação com seu paciente. A confiança que o paciente deposita no profissional é imensurável, e grande parte do tratamento depende dela. Uma boa relação, baseada em atenção, atualização do caso, presença e competência na técnica são a segurança que o paciente precisa.

É lícito aplicar um tratamento a um paciente sem esperanças, somente por experimentação médica?
Acredito que antes de tudo, é medicina é uma ciência. Deve-se trabalhar com ética e parcimônia o tempo todo, e dependendo do caso, o paciente não tem a perder com novos testes, e que ainda tem a chance de ser bem sucedido.

Como as crenças ou superstições afetam a recuperação de um paciente?
Eu tenho pra mim que a determinação do paciente em se reabilitar é 50% do tratamento. Quando o paciente é persistente, otimista e esforçado, é um atalho que pegamos. Rezar, orar e ser supersticioso faz parte dessa persistência. Eu discordo quando a religião passa por cima de algum conhecimento científico, que é consagrado pela sua efetividade e eficácia, impossibilitando que os profissionais façam seu melhor por preceitos e dogmas sem justificativa científica.

Qual é a melhor forma de dar más noticias a um paciente?
Não podemos esquecer que antes de tudo o paciente não entende termos técnicos. Ser didático na explicação facilita as coisas. Ser sincero e apresentar alternativas (quando há) são imprescindíveis.

A melhor medicina preventiva seria ensinar a viver?
Essa é uma pergunta vaga, rs. Temos culturas diferentes e estilos de vida diferentes de acordo com o lugar em que vivemos. Defendo a qualidade de vida dentro das possibilidades que são oferecidas ao paciente. no Brasil não temos o costume de ir ao médico quando estamos saudáveis. A fisioterapia e a educação física vêm tentando mudar esse cenário nos últimos anos, com incentivo à prática de exercícios físicos e manutenção da atividade física após a reabilitação.

Os erros mais freqüentes nas dietas de emagrecimento.
Por experiência com os pacientes, já vi casos em que o paciente passou mal durante a atividade física porque substituiu o almoço, que é a refeição mais respeitada entre os brasileiros, por um suco de melancia, sugerido em uma dieta de revista. Toda e qualquer dieta deve ser prescrita por um nutricionista, e não pode ser encarada como uma receita de bolo, mas específica para cada caso.

Fazem-se análises e radiografias desnecessárias demais nos centros médicos?
Pelo contrário. É dificílimo conseguir uma ressonância magnética por exemplo no início do tratamento e outra no final, para comparação. Os convênios são restritos em liberar pedidos de exames, o SUS tem uma fila interminável de espera, e o diálogo profissional com os médicos para solicitação ainda é precário.

Que nova tecnologia tem o potencial de salvar mais vidas no futuro próximo?
Parece uma resposta evasiva, mas é a pesquisa científica. Investir em pesquisa é a solução viável. Se o Brasil e os demais países da América do Sul investissem em pesquisa científica com maior verba por parte do governo e aumento da iniciativa privada, daríamos um salto exponencial nos resultados e teríamos mais estudantes interessados em seguir essa carreira.

Se lhe consultam, qual é sua recomendação sobre cirurgia estética e implantes?
Não só nesse segmento, como em tudo, deve-se analisar a relação custo X benefício. Não critico quem faz plástica para se sentir mais bonito. É uma questão de auto-estima e faz bem pro ego. A pessoa feliz tem mais disposição para viver. Sem contar as cirurgias estéticas que são de pós-operatório e que dão um resultado incrível, como por exemplo uma reconstrução de seios após uma mastectomia.

Sua opinião sobre a regulação administrativa da prática sanitária.
Quando atuam são eficazes. Mas ainda precisam se distribuir melhor e serem mais abrangentes. O contato nesse segmento é demorado e cansativo. As prioridades precisam ser revistas. Como fisioterapeuta, acho que se a vigilância fosse mais presente, muitas clínicas que vejo por aí seriam fechadas.

Como você valora o potencial ou os riscos da engenharia genética para a nutrição e a saúde humana?
Bom, estamos no início da colheita de resultados. É difícil precisar quantitativamente os danos ou benefícios, mas podemos ver as estatísticas do aumento de casos com intoxicação alimentar por uso excessivo de conservantes e gordura trans. Os alimentos transgênicos vão dominar o mundo. Fato. O que terá de ser feito é uma compensação para isso. Acho que a engenharia genética entendeu isso primeiro que todos, e estão trabalhando fortemente nisso. As pesquisas são maravilhosas.

Legalizar o uso de entorpecentes aumentaria ou diminuiria o dano que causam à saúde pública?
Legalizar é a melhor alternativa no que concerne aos problemas de violência e tráfico. Mas sem dúvida que seria uma grande transtorno à saúde pública. Antes de tomarmos atitudes como esta, deve-se melhorar muito a educação e a conscientização da população sobre os riscos que o uso indeterminado pode trazer ao organismo.

Dos milhares de produtos de beleza que há no mercado, que porcentagem deles fazem algo significativo?
Definitivamente, não sei responder a essa pergunta. Também faço uso deles, e a cada dia aparecem mais. Todo frasco de shampoo vem escrito “nova fórmula”.

Quantas vezes você adivinhou o que um paciente tinha somente olhando sua cara?
Para dar essa resposta eu teria que ser muito pedante, rs. Suspeita e sugestões é praticamente um treino de adestramento em um profissional clínico. Você olha para o paciente dos pés à cabeça procurando sinais relevantes. O acerto à essas suspeitas melhoram nossa confiança e nos incentiva e aprofundar o tema.

Que campo da saúde ou da medicina lhe interessa mais para se dedicar nos próximos anos?
Os grupos especiais são a minha paixão. O trabalho de atividade física com diabéticos, cardiopatas, idosos e obesos têm sido meu objeto de estudo, e pretendo me aprofundar cada vez mais nesse segmento.

Você trocaria esta profissão por qualquer outra?
Por qualquer outra não, mas se houvesse maior incentivo financeiro na área de pesquisa científica, dividiria meu tempo com o maior prazer do mundo para me dedicar a um laboratório.

Link da entrevista.

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